Nos dias 24 e 25 de novembro, ocorreu o primeiro Simpósio de Pós-Doutorandos do Instituto de Química da USP (SIMPDIQ). Com o objetivo de integrar e fortalecer esse grupo de pesquisadores, o evento contou com palestras a respeito dos desafios e das oportunidades na academia, bem como a importância das agências de fomento nesse espaço. Os doutorandos também apresentaram os seus projetos de pesquisa.
O primeiro dia contou com uma roda de conversa sobre o tema “A carreira de pesquisador e o papel das agências de fomento”. Nesse momento, os doutorandos compartilharam as suas experiências na busca por bolsas de pesquisa. Duas das participantes destacaram, ainda, como esse processo parece ser diferente em outros países, onde observaram mais pós-doutorandos estrangeiros no laboratório do que do próprio país. Mas enquanto uma delas compartilha que pretende investir em sua carreira no exterior, a outra revela que não consegue ficar distante do Brasil.
Um ponto levantado na roda de conversa e mencionado na palestra anterior sobre “Ciência e Inovação”, com Hernan Chaimovich, professor do Departamento de Bioquímica, foi sobre a seleção de bolsas se basear muito no número de publicações e de trabalhos realizados, em vez de outros métodos que podem ser considerados mais “justos”, como uma entrevista. Os pós-doutorandos também manifestaram preocupação com a idade nos ambientes de pesquisa para conseguir trabalho. O professor respondeu que esse aspecto varia de acordo com a cultura dos países e com a área de estudo.
Marca na academia
No segundo dia de Simpósio, Felipe Vieceli apresentou o seu projeto de pesquisa “Usando o embrião de galinha para estudar mutações de CIPA in vivo”. “CIPA” é o acrônimo de “Insensibilidade Congênita à Dor com Anidrose”, uma condição na qual as pessoas não respondem a estímulos de dor e tampouco transpiram. Devido a essa condição, elas podem não apresentar impulsos como o de retirar a mão do fogo; demoram a notar inflamações no corpo; e têm a regulação de temperatura do corpo prejudicada devido à falta de transpiração. A CIPA resulta de mutações no gene NTRK1, que codifica os receptores Trka, responsáveis pelo bom desenvolvimento de receptores neurais.
Pesquisadores utilizam as características dessa condição para desenvolver medicamentos contra a dor. Vieceli aponta que esse é o principal interesse do seu grupo, que desenvolveu um peptídeo para tratar dores inflamatórias. Ele também compartilha que pretende investigar o efeito de outras mutações individuais para entender se pode usá-las “para aprender mais sobre a proteína e talvez desenhar novos peptídeos.” Assim, Vieceli utiliza o embrião de galinha para estudar a diferenciação celular. Ele explica que o embrião “tem o potencial de conseguir ensinar várias mutações ao mesmo tempo, se feito com eficiência” em comparação com o modelo animal de rato.
Em seguida, ocorreu a palestra “Os Pós-Doutorandos na USP e no Instituto de Química – Desafios, Conquistas e Perspectivas”, realizada por Susana Torresi, professora do Departamento de Química Fundamental e Pró-reitora adjunta de Pesquisa da USP. Durante a apresentação, a docente destacou a importância de reconhecer formalmente os pós-doutorandos como uma categoria na USP.
Antes do encerramento do Simpósio, Walter Colli, docente do Departamento de Bioquímica, falou sobre ética na pesquisa. A apresentação do professor se fundamentou principalmente no Código de Boas Práticas Científicas da Fapesp. Ele destacou os princípios éticos na atividade científica, que são: pessoalidade intelectual; objetividade; imparcialidade; veracidade; justiça; e responsabilidade. “Os desvios de conduta são todos os atos em que um pesquisador, por intenção ou negligência, transgride os valores e os princípios que definem a integridade ética da pesquisa científica e das relações entre pesquisadores”, completa.
Assim, a má conduta não se manifesta a partir de um erro cometido em boa fé, de modo que a intencionalidade por trás da fraude ou da negligência deve ser evidenciada. Uma das primeiras ações antiéticas mencionadas por Colli é o plágio, prática em que o cientista copia ou reproduz o trabalho de outro sem fornecer os devidos créditos. Um ponto destacado pelo docente é que as publicações que apresentam problemas são retiradas e recebem o carimbo informando o problema. Porém, muitas vezes o material continua a ser citado.
Por Ana Santos | Comunicação IQUSP
