IQ recebe a Jornada de Filosofia das Ciências Físicas

Para alguns, pode parecer que a filosofia e a ciência não devem se misturar. Em contraponto a essa visão, existe a filosofia da ciência; isto é, não pensar na ciência por meio de experimentos ou teorias, mas discutindo conceitos e ideias. “Isso é o que faz o filósofo, em busca de rigor”, explica Osvaldo Pessoa Júnior, professor titular do Departamento de Filosofia da USP. Foi esse ofício que ocupou a tarde do Instituto de Química da USP, em 07 de maio, com o terceiro dia da 11ª Jornada de Filosofia das Ciências Físicas, organizado por Osvaldo.

“História e filosofia da ciência são áreas em que filósofos e jovens cientistas podem complementar sua formação tradicional e seu trabalho de pesquisa”, diz Osvaldo, que é formado em Física e Filosofia pela USP e uma das principais vozes da filosofia da ciência no Brasil.  

A última edição do encontro havia ocorrido em 2018. Neste ano, o aumento no número de interessados por filosofia da física e cosmologia fez com que Professor Osvaldo trouxesse os encontros de volta. A jornada durou três dias e passou pelo Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas (IAG), pelo Instituto de Física (IF) e pelo Instituto de Química. O evento foi constituído por apresentações e grupos de discussões organizadas por alunos de diferentes formações, que abordaram a vasta área da filosofia da ciência. 

O dia no IQ 

No IQ, as palestras foram organizadas por Vinicius Toscano, graduado em química pelo IQ  e doutorando em filosofia da ciência. Segundo Vinícius, a ideia de trazer o evento ao IQ foi sugestão sua e, inicialmente, seria apenas uma mesa de conversa. Com o apoio e cooperação do Professor Osvaldo, porém, tornou-se o terceiro dia da Jornada.

A primeira mesa trouxe uma apresentação do Professor Lucas Ducati, pesquisador de química computacional, com uma discussão coletiva sobre química computacional. Em entrevista ao IQ, o Professor Ataualpa Braga, também pesquisador da área, comenta: “é uma oportunidade de falar sobre mecânica quântica, química quântica e química computacional fora do âmbito em que estamos acostumados”. 

“Usamos a química quântica para nossos sistemas químicos e tentamos entender o mundo atomístico através da mecânica quântica, mas no caso dessa mesa, é uma questão quase filosófica sobre como entendemos e o que veio de novo com a quântica, porque a Quântica mudou o nosso jeito de ver a natureza.”

- Atualpa Braga, Professor do Instituto de Química da USP. 

A mesa levantou questões sobre a evolução de diferentes linguagens de programação e softwares usados na química computacional. Temas como o avanço da inteligência artificial e sua aplicabilidade na área, bem como discussões sobre onde estão materializados os conhecimentos químicos nas simulações químicas computacionais, também foram abordados. 

 

O Reducionismo 

A mesa seguinte foi “Reducionismo na Química Quântica: uma perspectiva histórica”, apresentada por Toscano. Desenvolvendo conceitos químicos com um olhar filosófico, a argumentação de Toscano iniciou-se com uma abordagem histórica e um debate sobre reducionismo a partir da definição do filósofo Ernest Nagel

Baseando-se nos escritos de Nagel, Toscano explica: “O que antes era algo entendido pela fisiologia, ou seja, as leis do comportamento digestivo do estômago, agora podem ser substituídas por um mecanismo puramente químico: uma reação química, uma reação ácido-base(...). Se tivermos que captar esse espírito do reducionismo, seria isso: uma substituição de algo que é de um campo específico para outro”, completou. 

Vinicius Toscano iniciou sua apresentação com um ponto de vista histórico do reducionismo [Imagem: Ana Carolina Mattos/Comunicação IQ]

A argumentação prosseguiu com debates sobre os diferentes tipos de reducionismo, anti-reducionismo e as suas formas totais. Ao final da apresentação, a plateia apresentou perguntas e ideias. Como resultado, o tempo de debate ultrapassou o de apresentação. 

 

Ética e interpretações na química 

Em seguida, Miguel Paneczko, graduado em Ciências Moleculares pela USP, apresentou a palestra “Valores e a síntese química: pluralismo estratégico e discussões de cunho ético”. A apresentação dedicou-se a questionamentos éticos sobre a química, seus estudos e como seguir com o progresso científico de forma ética.

Paneczko apresentou contextos históricos da antiga relação alquimista/químico, além de referências a produções de horror e ficção científica. Também abordou a ideia de neutralidade como um ideal regulador da ciência, não no sentido de “uma ciência livre de valores”, mas “uma ciência que é capaz de incluir equitativamente todos os valores aceitos em sociedades democráticas”. 

Dentre os muitos maus usos da ciência, Paneczko citou o caso de J. Robert Oppenheimer para os físicos. Na química, cita crimes de guerra cometidos durante a Guerra do Vietnã, como o uso de Napalm, evento que originou a famosa fotografia “A Menina de Napalm”, fotografada por Nick Ut.

Miguel Paneczko também abordou a ideia de transformação por meio da ciência com um olhar ético, partindo da história de Frankenstein [Imagem: Ana Carolina Mattos/Comunicação IQ]

O dia se encerrou com a apresentação de Lorenzo Follador, graduado pelo IQ e mestrando no IF-USP, com o tema “Densidade ou probabilidade na nuvem eletrônica?”. A apresentação de Lorenzo foi a mais teórica da tarde, com uma discussão baseada em seus estudos de mestrado e ideias da mecânica quântica. 

Assim como a apresentação de Toscano, o debate após a apresentação foi extenso, com diversos estudantes e docentes de diferentes áreas contribuindo para a interpretação dos estudos de Follador. 

Data de Expiração: 
22/06/2030

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