No dia 8 de dezembro, ocorreu a 13° edição do Workshop do Mestrado Profissional no IQ, sob a temática “O Papel da Química na Economia Circular”. Organizado anualmente pelo Programa de Mestrado Profissional em Tecnologia Química e Bioquímica, o evento é uma oportunidade para os alunos apresentarem os resultados dos seus projetos de pesquisa. Os trabalhos também são publicados no Anais do Workshop – um livro online e com acesso aberto, hospedado na plataforma da editora Blücher.
O evento se abriu com a palestra de Iris Tébéka, gerente de marketing na Univation Technologies, com o tema “Sustentabilidade na Indústria de Plásticos: Como Conduzir a Mudança Proativamente”. Ela aponta duas abordagens principais no esforço em ser sustentável nesse cenário: a emissão de gases intensificadores do Efeito Estufa, como o CO2, e o lixo plástico ao final da cadeia produtiva.
“Em uma economia perfeitamente circular, o lixo voltaria ao ponto de partida e essa cadeia seria contínua. Então, esses dois lados correspondem ao início e ao final da cadeia de valor. O início em que as matérias-primas são geradas e o final em que o plástico, depois de usado, é descartado.”
Iris Tébéka
A partir dessa explicação, a pesquisadora expõe alguns dados que demonstram uma expectativa de aumento nas emissões de carbono devido à produção e à incineração de plástico. Enquanto isso, a de reciclagem se mantém relativamente pequena, não acompanhando o nível de emissão de carbono. “Isso é um problema em si, porque existe uma grande emissão de carbono no início da cadeia, mas não existe uma solução capaz de acompanhá-la para que essa circularidade aconteça”, destaca.
A principal discussão sobre plásticos envolve a sua aplicação em embalagens, cujo consumo aumentou ainda mais devido ao e-commerce. A preferência por esse material, em detrimento de outros mais sustentáveis, se deve a fatores como baixo custo, resistência e flexibilidade. Assim, as empresas buscam novas estratégias, que tornem o seu produto mais reciclável – uma demanda, inclusive, da própria sociedade.
“Existe um esforço no design de embalagens para torná-las mais sustentáveis. Por exemplo, usar menos material em cada embalagem, para que seja mais fácil de reciclar; evitar misturar diferentes polímeros; e fazer com que o formato seja mais adequado, para o consumidor conseguir reciclar”, explica Tébéka. Ela acrescenta que as empresas precisam analisar meios que tornem o produto não só sustentável ambientalmente, mas também economicamente viáveis para a organização.
Rumo à sustentabilidade
Após a palestra de Tébéka, alguns alunos apresentaram seus trabalhos envolvendo a temática da economia circular. O primeiro foi “Economia Circular e Agrotóxicos: Reflexões sobre a Extensão do Prazo de Validade e o Potencial da Análise de Ciclo de Vida”, realizado por Liliane Gomes Martins, gerente de química e conformidade de produtos na Bayer.
A profissional destaca que a relevância do tema se deve a fatores como a posição do Brasil como país predominantemente agrícola e o fato de a maioria dos ingredientes para agrotóxicos serem fabricados em outros países – o que insere o transporte do material no ciclo. Com o objetivo de maximizar o uso dos produtos, de modo que sejam sustentáveis ambiental e economicamente, os estudos de Martins consideram a extensão do prazo de validade, englobando as fases de produção, de distribuição e de descarte.
Em seguida, Renan Fernandes, pesquisador do Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT), apresentou “Rumo a Embalagens Sustentáveis: O Papel da Lignina na Química Verde”. A lignina é um biopolímero encontrado na parede celular de plantas terrestres e apresenta algumas propriedades que possibilitam o seu uso no desenvolvimento de embalagens sustentáveis. Entre elas estão a atividade antimicrobiana, a capacidade antioxidante e a proteção UV.
Depois, Bruna Valeri, gerente associada de desenvolvimento de produto na Colgate-Palmolive, realizou a sua apresentação, intitulada “Alternativas sustentáveis para embalagens cosméticas: uma revisão crítica”. A palestra teve como foco a circularidade de embalagens cosméticas, que envolvem xampu, creme e enxaguante, por exemplo, presentes na maioria das residências.
Valeri aponta que a legislação, a conscientização das pessoas – que, na figura de consumidores, cobram essa mudança das empresas – e os 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Organização das Nações Unidas (ONU) são alguns fatores que têm impulsionado o mercado a trabalhar com reciclagem, sustentabilidade e circularidade. “É preciso ter responsabilidade no ciclo de vida [da embalagem], porque, muitas vezes, a empresa produz, entrega e simplesmente ignora o que acontece dali para frente”, reforça. Ela explica que o ciclo normal de consumo, então linear, adota uma rota circular. Assim, as empresas analisam possibilidades para que o material seja reutilizado, prolongando o tempo que a etapa de descarte chega.
Valeri também explica que uma das preocupações em utilizar embalagens sustentáveis de cosméticos é que, além de não agredir o meio ambiente, elas também devem manter as condições adequadas do produto. “A durabilidade pode ser uma coisa boa, porque eu quero algo que proteja o produto por muito tempo. Na contramão, é algo que, depois que for descartado, vai durar no meio ambiente”, completa. Uma das alternativas sugeridas é o uso de polímeros biodegradáveis e bioplásticos, materiais de origem verde e degradados por microrganismos para integrar novamente a natureza.
A profissional comenta que uma discussão presente na indústria trata da competição gerada no uso de matérias-primas, como amido. Ao mesmo tempo em que ele é utilizado em biopolímeros, seu cultivo também é destinado à alimentação. Outro ponto destacado é a educação dos consumidores sobre a importância da circularidade. Ainda que as empresas criem embalagens retornáveis, os consumidores precisam confiar em usar esses materiais e retorná-los à cadeia produtiva. “O refil e o reuso reduzem muito a pegada de carbono e geram fidelização; as pessoas começam a enxergar a empresa de outra maneira. Mas é preciso analisar bem o ciclo de vida, para garantir que o planejamento vai dar certo”, reforça.
Análises verdes
Na segunda parte do evento, alguns alunos compartilharam suas produções científicas. João Kazlauckas foi o primeiro a apresentar seu trabalho, intitulado “Aplicação da Resina Macroporosa DM11 na Identificação de Flavonoides Glicosilados Hidrossolúveis de Bambus”. Os bambus utilizados foram os americanos, em que o grupo realizou a contenção antioxidante e antitirosinais, além de analisar as suas composições químicas.
Em seguida, Rafael da Silva apresentou “Viscosidade de Soluções e Propriedades Mecânicas de Filme de Quitosana/Caseína”. Ele explica que o trabalho envolve a importância de um polissacarídeo e de uma proteína, respectivamente, na obtenção de novos materiais. A primeira apresenta propriedades antimicrobianas e é biodegradável, enquanto a segunda é uma proteína presente no leite.
Por Ana Santos | Comunicação IQUSP
