
Entre os dias 29 de setembro e 3 de outubro ocorreu a 42ª Semana da Química no Instituto de Química da Universidade de São Paulo (IQUSP). Com a temática “Uma corrida contra o tempo: a Química como catalisador dos ODS”, o evento reuniu especialistas para discutir assuntos que rodeiam os principais objetivos – como Saúde e Bem-Estar (ODS 3); Vidas na Água (ODS 14); Fome Zero e Agricultura Sustentável (ODS 2); Indústria, Inovação e Infraestrutura (ODS 9); e Energia Acessível e Limpa (ODS 7). Como novidade, o evento ainda realizou um mini-simpósio nos intervalos das palestras principais, onde estudantes de Iniciação Científica puderam apresentar seus projetos de pesquisa.
O primeiro dia da Semana da Química começou com um agradecimento à equipe, aos docentes e aos funcionários do Instituto. Logo em seguida, a Comissão Organizadora celebrou os funcionários técnicos do IQ. “Eles são indispensáveis para o funcionamento do Instituto e, por isso, são os homenageados desta edição”, completou uma das integrantes. Os docentes parabenizaram a continuidade do evento desde 1981 e comentaram um pouco sobre a programação.
Patrícia Busko Di Vitta, responsável pelo Serviço de Gestão Ambiental e Resíduos (SVGAR), foi a primeira convidada a tomar a frente do anfiteatro. Graduada e doutora pelo IQ, ela compartilha que as questões ambientais e de sustentabilidade não costumavam ser discutidas no Instituto.
“Nós adotávamos políticas inseguras e, eventualmente, incorretas – tanto no ensino como na pesquisa. Depois, ao longo da minha graduação e da minha pós-graduação, eu vi uma série de mudanças. Muitas vezes, elas não eram motivadas por anseios ambientais ou boas condições de trabalho, mas consequência de acidentes que nós tivemos na Instituição ou também por questões financeiras.”
Patrícia Busko Di Vitta
Assim, a atuação do SVGAR demonstra algumas das mudanças que o IQ tem promovido, fazendo com que o estoque e tratamento de reagentes seja controlado de acordo com as legislações de segurança ambiental e trabalhista.
Organização de atividades químicas
A apresentação seguinte foi conduzida por Paula Strino, da empresa Clarivate Analytics, que explicou o funcionamento da plataforma Cortellis Drug Discovery Intelligence. Segundo ela, a ferramenta tem foco em drogas e compostos químicos e diversos experimentos e estudos clínicos estão cadastrados nela. Ao longo da apresentação, Strino demonstrou como a plataforma é alimentada e como os pesquisadores conseguem acessar seus conteúdos, desde que estejam vinculados a uma instituição de ensino.
Em seguida, o docente Henrique Eisi Toma, do Departamento de Química Fundamental, comentou sobre o elemento do ano: o molibdênio. Trata-se de um metal de transição, essencial para a vida humana e útil em indústrias metalúrgicas. Como o molibdênio tem grande variedade em seus estados de oxidação, ele é importante para a formação de compostos orgânicos. “O molibdênio tem tudo a ver com os ODS, porque está relacionado à energia limpa, indústria e ação contra a mudança climática”, completa o docente. Isto se deve ao fato de que esse elemento é utilizado na produção de turbinas eólicas e painéis solares, além do desenvolvimento de catalisadores.
No período da tarde, uma palestra com Juliana Posca, fiscal do Conselho Regional de Química (CRQ) de São Paulo, esclareceu dúvidas dos discentes sobre a obtenção do documento que licencia a sua atuação profissional na área química. O CRQ é uma autarquia que fiscaliza os postos de trabalho dos profissionais da química. É mantida por uma licença anual paga por esses profissionais.
Durante a apresentação, Juliana explicou as áreas em que os graduados podem atuar, a depender do seu nível de formação – técnico ou bacharelado, por exemplo –, tendo em vista que a abordagem e o aprofundamento dos conteúdos é diferente. “Todo profissional que desempenha qualquer atividade química dentro de uma empresa tem que ser formado e precisa ter registro”, destacou a profissional. Assim, o CRQ visa combater o exercício ilegal da profissão e garantir a segurança no local de trabalho.
Ela ainda explica que os profissionais podem cancelar a licença, caso não atuem mais na área, ou suspendê-la se estiverem desempregados. Assim, evitam o pagamento da anuidade no período ocioso. Em ambas as situações, a própria pessoa deve contatar o CRQ para efetuar a solicitação; do contrário, a anuidade continuará a ser cobrada. Além disso, o profissional pode alterar o nível do seu CRQ se adquirir novas formações.
Manutenção da memória
Após a palestra, os docentes Ana Maria da Costa Ferreira e Fabio Rodrigues, do Departamento de Química Fundamental, e Walter Colli, do Departamento de Bioquímica, se reuniram em uma mesa redonda sobre os 75 anos do IQ. Enquanto Ferreira e Colli apresentaram suas experiências na formação do Instituto, Rodrigues trouxe uma perspectiva mais recente sobre o significado do lugar. Ainda assim, as abordagens se complementaram, por tratarem da formação do Instituto como instituição acadêmica e social.
Colli iniciou o encontro com a história da construção da USP, relatando como o IQ era parte da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras (FFLC) antes de serem formados institutos separados. “A universidade é um centro de pesquisa, onde os professores têm a liberdade para explorar suas ideias e formar pessoas mais qualificadas para a sociedade”, destacou o docente.
Após sua fala, Ferreira tomou a frente da mesa. Apresentou os antigos professores e os espaços de convívio coletivo dos estudantes. Diversas fotografias carregadas de histórias foram exibidas para ilustrar sua fala. A docente destacou que o mais importante no IQ são as pessoas: cada um contribui à sua maneira para a formação do Instituto. “O que nos caracteriza? Pluralidade e diversidade. Cada um tinha a sua filosofia, os seus modos, as suas metodologias e tivemos que conviver aqui."
Por fim, Rodrigues apontou a necessidade de preservar todas as memórias do IQ. Ele ainda destacou que muitas mudanças ocorridas no Instituto acompanharam a alteração da dinâmica de São Paulo. Responsáveis pelo Centro de Memória, que busca preservar documentos e arquivos do IQ, Fabio e Ana reforçaram o quanto a história do IQ acaba se perdendo por não ser compartilhada, o que gera um distanciamento afetivo com o local. “Isso é ruim para quem dedicou a sua vida inteira e de repente tem seu nome apagado”, comentou o docente, ressaltando a importância do projeto.
Luta por espaço
No segundo dia, houve outra mesa redonda, com a temática “Igualdade de Gênero - Mulheres na Ciência”. A conversa contou com a participação da Adriana Alves, docente do Instituto de Geociências (IGc), Kaline Coutinho, docente do Instituto de Física (IF), Maria Arminda do Nascimento Arruda, docente em Sociologia na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) e Ohara Augusto, docente do Departamento de Bioquímica do IQ.
Durante o encontro, as profissionais compartilharam os desafios que enfrentaram em suas trajetórias acadêmicas, abordando tanto o aspecto de discriminação por serem mulheres quanto o conflito de suas vidas pessoais com a de cientista. Adriana, como mulher negra, mais do que lutar pelo seu espaço como mulher, também participou de movimentos que exigiam maior inclusão de docentes negros.
No outro lado, Coutinho compartilhou a dificuldade que enfrentava para ter suas ideias ouvidas pelos colegas, tendo em vista que só as falas de profissionais homens eram atendidas. “As pessoas só te escutam se você for chefe, se você for coordenadora”, comentou. A partir disso, ela passou a participar da gestão universitária e a ocupar cada vez mais cargos de liderança.
As quatro ainda pontuaram que, ao terem filhos, a construção de uma família também foi um ponto de mudança em suas vidas. Arruda destacou que o fluxo de pesquisa costuma cair durante esse período. Antigamente, mulheres costumavam perder bolsa de doutorado caso engravidassem. Mas as mudanças em decorrência da maternidade também contribuíram para a organização da rotina das profissionais. “Eu era extremamente procrastinadora, mas precisei me tornar muito assertiva nas minhas horas de trabalho”, comentou Alves após compartilhar que sua produtividade aumentou quando se tornou mãe.
Conhecimento
O terceiro dia da Semana da Química contou com a participação de empresas ilustres e importantes na temática de sustentabilidade: P&G e Bayer. No período da tarde, a P&G apresentou as políticas sustentáveis que regem a organização, destacando as metas existentes e as mudanças já realizadas no modo de produção. Mariana Luzzatto, gerente de ESG e Diversidade da P&G, contribuiu com a discussão, apresentando os projetos de equidade e inclusão da empresa.
No quarto dia, os participantes tiveram a oportunidade de participar de uma Oficina do Batom. Divididos em grupos de cinco pessoas por bancada, os estudantes produziram diferentes tonalidades do produto: alguns eram mais avermelhados, enquanto outros ficaram mais escuros.
No último dia, ocorreu a palestra sobre “Criação e Dispersão dos Elementos Químicos Através da Galáxia”, com Hélio Jaques Rocha Pinto, presidente da Sociedade Astronômica Brasileira (SAB) e docente na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). O início de sua explicação sobre o tema voltou-se à própria origem do universo e se expandiu, principalmente, para as reações entre elementos que ocorrem dentro das estrelas.
Para encerrar as atividades da Semana da Química, Liane Rossi, fundadora do Laboratório de Nanomateriais e Catálise, e José Tiago Menezes Correia, do Departamento de Química Fundamental, contribuíram com a mesa redonda “Transformação de CO2 em produto de alto valor agregado”. Apesar de adotarem métodos diferentes em suas pesquisas, ambas têm por base a mitigação das mudanças climáticas por meio da captura e transformação de gás poluidor. Assim, enquanto a abordagem de Rossi se concentra na catálise heterogênea - catalisador e reagente em fases diferentes -, com foco na transformação do carbono em metanol verde, Correia estuda a catálise homogênea por meio da fotocatálise de ácidos carboxílicos derivados.
“O aumento da concentração, principalmente, de CO2 e metano na atmosfera leva a uma intensificação do efeito estufa, o que pode promover um aumento da temperatura global. Então, tecnologias têm que ser desenvolvidas para tentar diminuir a concentração desses gases, seja evitando a emissão ou capturando e tentando reduzir. Os ciclos naturais fazem isso, mas não são capazes de conter sozinhos o tanto de gases de efeito estufa que são emitidos. Então, será necessário a implementação de tecnologias.”
Liane Rossi
Por Ana Santos | Comunicação IQUSP
