Perfil | Dos 50 anos de história no IQ à Academia Brasileira de Ciências: a trajetória de Ana Maria da Costa Ferreira

Para Ana Maria da Costa Ferreira, o último dia 7 de maio terminou com uma das maiores honrarias que um cientista pode receber. Nesse dia, aos 76 anos, mais de 50 deles dedicados ao Instituto de Química da Universidade de São Paulo (IQ), a professora foi escolhida para tomar posse como membro titular da Academia Brasileira de Ciências (ABC). 

O interesse de Ana Maria pelas ciências começou ainda na escola, por influência de uma professora do ginásio (antigo nome dos últimos quatro anos do ensino fundamental). Clarinda Mercadante de Lima era uma jovem de 23 anos, bióloga formada pela USP, e faz brotar na aluna adolescente a curiosidade e o amor à pesquisa. “Foi ela quem me iniciou na ciência”, declara a nova componente da ABC.

No colegial (atual ensino médio), a professora Lucy Sayão mantém esse amor vivo. A jovem Ana Maria também se interessa por biologia, mas, com forte influência de Sayão, escolhe a química como caminho definitivo. Meses depois, no fim de 1967, presta o vestibular da Universidade de São Paulo, ingressando no curso de Química no ano seguinte. Então se inicia sua trajetória acadêmica, que, como ela diz, “foi inteira no IQ”, com seu doutorado no Instituto se iniciando pouco tempo depois do fim de sua graduação, em 1972. 

O processo teve seus desafios. O doutorado começou com a orientação de Pawel Krumholz, que já havia orientado Ana Maria em sua iniciação científica, no 4º ano de graduação. Quando ela estava no segundo ano do doutorado, o professor faleceu inesperadamente, deixando Ana e mais outros três orientandos em luto e com as teses inacabadas. 

“Ficamos órfãos”, diz ela, com pesar. De fato, o professor Krumholz deixou um marco em sua carreira acadêmica e também em sua vida. Um retrato seu está pregado em uma das paredes da sala de Ana Maria no Instituto de Química, a sala de número 200 no térreo do Bloco 2. 

P. Krumholz, Helena Li Chum e Professora Ana Ferreira em Curitiba, 1971. 

[Imagem: Acervo pessoal/Ana Maria da Costa Ferreira]

 

Com a ajuda de outros docentes e apoio do instituto, o trabalho de Ana Maria passou para a orientação de José Riveros, outro importante professor em sua trajetória que, apesar de seguir uma linha de pesquisa diferente daquela do professor Krumholz, foi uma importante adição ao projeto e a sua formação acadêmica. “Ele me possibilitou ter influências diferentes. Se tivesse terminado com Krumholz, a tese não seria a mesma”, destaca a professora. Mesmo com as tristes mudanças e dificuldades, a tese foi concluída no tempo correto. 

Sua carreira como docente iniciou em janeiro de 1978, depois dos anos de graduação, doutorado e pós-doutorado no IQ. “No início, eu me sentia muito mais inorgânica do que físico-química”, revela, enquanto passeia por sua história na química. Em pouco tempo, as aulas, que antes atraíam 60 alunos, no IQ, no Instituto de Física (IF) e no Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas (IAG), passaram ao marco de 200, quando ela começou a lecionar também na Escola Politécnica, efeito que fez com que, segundo as contas da própria professora, seu número de alunos chegasse a cerca de 8 mil. 

Professora Ana Maria em grupo de alunos e professores B2T- 1978

[Imagem: Acervo pessoal/Ana Maria da Costa Ferreira]

 

Seus alunos, talvez ainda mais do que suas pesquisas e laboratórios, são motivo de orgulho e realização. “Eu me sinto recompensada nesse aspecto. Contribuí de alguma forma para o sucesso deles”, destaca Ana Maria. “Orientei mais de 35 teses, entre mestrados e doutorados”, relata, acrescentando que seu título de Professora Sênior permanece. Hoje, ela ainda orienta mais duas teses. 

Ao longo de sua trajetória no IQ, a professora Ana Maria passou por diferentes áreas na pesquisa. Ela começou fazendo complexos de ferro com ligantes imínicos, muito presentes no organismo humano. Como estava muito interessada nas reações desses complexos de ferro, as espécies reativas presentes nessas reações se tornaram um importante objeto de pesquisa.  

Mas é quando inicia sua carreira docente que se interessa pela atividade de íons metálicos. Aos poucos, com a bagagem de suas vertentes em metodologia de síntese e espectroscopia, a professora Ana Maria se aproxima da bioinorgânica, área em que se aprofundará ainda mais nos anos 2000, quando passa a estudar reatividade de íons metálicos no meio biológico, tendo em vista o planejamento de metalofármacos. 

Entre seus muitos prêmios, destaca-se a maior honraria do IQ, o Prêmio Rheinboldt-Hauptmann, concedido a pesquisadores que sobressaem por sua inovação e excelência na ciência e na academia, nas áreas de bioquímica e química. Ela foi a 36ª vencedora do prêmio e a 6ª mulher a conquistá-lo. 

Para a professora Ana Maria, o quadro completo de sua carreira foi o fator decisivo para ser escolhida pela Academia. “Atuei como Diretora da Divisão de Química da SPQ (Sociedade Portuguesa de Química) e, aqui no Instituto, fiz parte de todas as Comissões”, relata. Mas a docente não deixa de ressaltar seu papel de destaque na pesquisa e no ensino. “Sempre lecionei em graduação e pós-graduação; e orientei 35 teses. Aqui na USP, você é avaliada pelo famoso tripé: ensino, pesquisa e extensão”, frisa. 

 

“À Academia você não concorre, eles escolhem dentro da comunidade. É um feito!”

A professora tem inúmeros trabalhos que impactaram a literatura científica, mas seus favoritos são dois. O primeiro é a primeira publicação de seu laboratório, em 2005, tratando de metalofármacos. O segundo é uma colaboração com a professora Ohara Augusto, também do IQ, sobre o radical carbonato. À época, muitos cientistas queriam provar a existência desse radical a partir do peroxinitrito, área que a professora Ohara estudava. Em colaboração, as professoras provaram a existência do radical carbonato. Foi um dos maiores impactos da carreira de Ana Maria na ciência. 

Ao final da entrevista, a professora Ana Maria destaca um aprendizado deixado por Krumholz:

“A ciência é como se fosse uma parede: cada um põe o seu tijolinho. Cada um vem com uma coisa nova que possibilita construir a parede do conhecimento.”

*Imagem de capa: [Acervo pessoal/Ana Maria da Costa Ferreira]
 
Data de Expiração: 
22/06/2036

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